A Natureza do Pensamento

As questões em tela versam sobre metafísica, que estuda como as coisas acontecem na realidade. Se estamos tratando de um conflito entre pensamentos para saber qual deles é o verdadeiro, devemos primeiro justificar a possibilidade de existir qualquer pensamento. Ou seja, se a existência do pensamento em geral não é justificada, sequer poderá ser justificada a existência do pensamento verdadeiro. Daí a necessidade dessas questões antes de tudo.

Se o pensamento é a informação processada pelo homem, onde ele ocorre? Ou, qual a sua natureza? Se o pensamento for algo material e acontecer no cérebro humano, como ele surge e vai parar lá? Por exemplo, ao observar alguma imagem, talvez pássaros em árvores ao fundo de um céu azul, como esse dado objetivo da realidade chega ao cérebro? Seriam os sentidos os reais causadores dos pensamentos? Além disso, o que faz uma pessoa pensar X e não Y? De outra forma, por que observar algo faz a pessoa necessariamente pensar que está vendo o que acha que está vendo e não outra coisa, como algo totalmente ilusório?

Em primeiro lugar, o pensamento transcende a matéria e não pode acontecer em um cérebro físico. Isso porque não se trata meramente de processar dados e gerar resultados literais, como qualquer computador programado pelo homem é capaz de fazer. Antes, envolve reflexão, compreensão e elaboração de raciocínios abstratos e complexos, o que depende não apenas do mero uso, mas da própria presença de vários conceitos imateriais, como da lógica, inata no ser humano. Como o imaterial pode habitar no material? Desafio qualquer um a provar isso através de silogismos e argumentos sólidos e válidos. Mas como é algo impossível e ninguém pode fazer, segue-se que o pensamento, na verdade, é uma função da alma, não do cérebro — só uma mente consciente e criativa é capaz de pensar.

Ademais, os órgãos dos sentidos também são coisas físicas e não podem causar pensamentos no homem. Como órgãos físicos se comunicam com uma alma imaterial? Não importa o que você diga sobre as sinapses do cérebro — já vimos que o cérebro é algo físico e não pode pensar. Então, como suas sensações surgem e se comunicam com sua mente? Ou seja, como a relação corpo-mente funciona no ser humano? O que os filósofos não-cristãos disseram a respeito? Platão e Aristóteles foram bem-sucedidos ou assumiram que este é um problema complexo sob suas cosmovisões? E você, incrédulo, o que nos diz? Precisamos de respostas válidas, e misturar o material com o imaterial sem um bom motivo é uma falácia categórica.

Em segundo e último lugar, sob o cristianismo esses não são problemas reais, muito menos insolúveis. Por exemplo, ao ler a Escritura, as informações não chegam a minha alma por causação real das minhas próprias sensações. Em vez disso, minha visão (ou qualquer outra sensação) apenas fornece ocasião para Deus diretamente agir — no caso, fornecer informações à minha mente enquanto leio a Bíblia. Deus atua tanto sobre o material quanto sobre o imaterial pelo seu poder, o mesmo que criou tudo do nada. Deus é espírito e não sofre nenhuma limitação física, sendo o soberano criador e mantenedor de tudo. Longe de mim querer atribuir ao homem qualquer poder de criar ou manter algo! Sequer consigo fazer um mísero fio de cabelo crescer em minha cabeça, quanto mais causar um pensamento em minha alma! Apenas o cristianismo resolve isso, conforme o ocasionalismo.

Em resumo, o ocasionalismo ensina que, de regra, Deus correlaciona determinados eventos entre si na mesma ocasião, como as sensações com o pensamento quando alguém vê alguma coisa, causando um após o outro de modo a facilitar a relação entre eles. Mas isso ocorre à parte deles por si mesmos, que realmente existem, embora de forma totalmente independente entre si, ainda que acontecendo na mesma ocasião e parecendo que um é causa real do outro. Com isso, Deus imprime uma ordem geral no universo por meio da sua providência ordinária, controlando tudo o que existe. Assim, dado que só Deus é onipotente, ele é a única causa real de tudo, de modo que a natureza da relação entre as coisas criadas é de mera correlação — isto é, Deus meramente faz um evento vir após o outro no tempo, sem que um seja causa real do outro, apenas aparente. Então, a correlação entre os eventos é desnecessária, real apenas sob a vontade de Deus, não por algo inerente às criaturas.

Afinal, o ocasionalismo não inova nas expressões utilizadas. Por exemplo, é comum dizer “cavalo captura peão” no xadrez pressupondo que foi o jogador quem realizou o movimento sobre as peças, não que as peças se moveram de forma independente. Semelhantemente, podemos utilizar a linguagem de que fazemos coisas reais no nosso dia a dia, como "aprender pela leitura", desde que tenhamos em mente que é Deus quem faz todas as coisas, causando-as e associando-as em uma ordem, conforme seus decretos eternos.

E aí? Vamos continuar? Ou até aqui já foi suficiente para você assumir que precisa da Bíblia e de Cristo para a sabedoria e salvação? Não? Então, sigamos! Voltar para continuar...