A Coerência da Verdade

O pensamento válido, ou que respeita as leis da lógica, não apenas deve ser isento de falácias, mas também ser coerente, sem nenhuma contradição. Isso porque, assim como dissemos anteriormente no artigo, As Pré-Condições de Inteligibilidade, contradição é nada e o nada não pode ser compreendido. Assim, a lei da não-contradição é necessária para que haja qualquer significado, sendo a coerência uma característica absolutamente necessária à verdade. Ademais, a coerência da verdade em uma situação de debate entre cosmovisões se aplica em, pelo menos, duas situações, definindo a coerência essencial a qualquer pensamento.

A primeira é quanto ao próprio ponto de partida. Quero dizer, uma cosmovisão (conjunto de pressupostos que norteiam nossas interpretações) deve ser fiel à sua autoridade máxima, não podendo recorrer a outras fontes de informação para se autojustificar em abrangência, validade e autoridade. Isso porque toda visão de mundo procede de um início definido, que é o axioma ou primeiro princípio da cosmovisão. As informações que sustentam a visão de mundo não existem por acaso, devendo, antes, ser coerentes quanto ao seu suposto nascedouro.

De outra forma, não haveria coerência (antes, haveria contradição) na visão de mundo que recorresse a princípios diferentes da sua própria origem. Por exemplo, para se autojustificar como possuidor da verdade, o cristão não pode recorrer ao Alcorão assim como o islâmico não pode recorrer à Bíblia, pois o axioma do cristianismo é a Bíblia e do islamismo é o Alcorão. Ou seja, é tudo ou nada, e se você não é cristão não pode usar a Escritura para justificar a sua cosmovisão. Mas será que alguém conseguiria se autojustificar sem a Bíblia somente?

A segunda e última situação em que a cosmovisão verdadeira deve ser coerente é quanto às suas próprias doutrinas principais. Isso porque são justamente essas as doutrinas que mantém a cosmovisão de pé, como metafísica, epistemologia e ética. Assim, mesmo concedendo que você se justificaria com uma ética não-cristã (o que já é algo impossível), certamente se autorefutaria na metafísica e epistemologia não-cristãs (e vice-versa). Esses tópicos são essenciais pelos motivos que já elencamos nos artigos anteriores, mas não custa lembrar:

Metafísica porque a verdade depende da ocorrência do pensamento e das pré-condições de inteligibilidade na mente humana (lei da não-contradição, categorias de causação, tempo e espaço, noções de estabilidade, identidade, ética etc.);

Epistemologia porque a verdade também depende de uma base confiável o bastante para garantir a separação entre verdade, mentira e ilusão (sonho, ficção etc.); e

Ética porque a verdade também depende de uma base autoritária o bastante para definir o bem e o mal, dando cabo ao destino de cada ser humano.

Não-cristãos sabem que a coerência é absolutamente necessária à visão de mundo que se autojustifica como verdadeira. E justamente por isso acusam o cristianismo de supostamente cometer contradições. Por exemplo, dizem que o Deus cristão não pode ser bom, dado que o mal existe no mundo e isso contradiz a bondade de Deus. Também dizem que Deus não pode ser onipotente porque, se o fosse, deveria ser capaz de criar coisas como círculo quadrado. No entanto, os desafios supracitados são desafios que devem ser levados a sério?

Primeiro, ainda que o cristão não fosse capaz de resolver tais questionamentos, isso não automaticamente provaria a cosmovisão não-cristã como verdadeira. Todos os pontos levantados sobre metafísica, epistemologia e ética nos artigos anteriores permaneceriam sem resposta. Como o não-cristão resolveria tais questões sem o Deus das Escrituras? Na verdade, o cristianismo deve ser pressuposto até mesmo para compreender as objeções dos não-cristãos, por mais estúpidas que possam ser. Sem o cristianismo, o não-cristão não apenas não existiria, mas sequer conseguiria se expressar e se fazer entendido por ninguém.

Em segundo lugar, a Bíblia ensina que o mal foi decretado como mero meio para Deus revelar a sua própria glória. Qual o problema com isso? Não que os fins justifiquem os meios, mas que Deus justifica os fins e os meios. Deus é a autoridade máxima para dizer o que é certo e errado, verdadeiro e falso, conforme veremos no artigo subsequente, A Autoridade da Verdade. Assim, pergunto o mesmo que o apóstolo Paulo em Rm 9:20: Deus não pode fazer o que quiser com a sua própria criação? Não que Deus precise disso para ser Deus, mas se ele quer fazer algo, e daí? Assim, embora o mal continue mal e passível da ira de Deus, é bom que o mal tenha vindo ao mundo, pois Deus assim o quis.

Em terceiro e último lugar, um círculo quadrado é nada e o nada não pode ser criado. O não-cristão realmente acha que, para o Deus cristão ser onipotente, é necessário ser capaz de criar o nada? Bem, essa é uma questão digna de um não cristão — tão estúpida quanto. Círculo é uma coisa, quadrado é outra, sendo impossível haver algo como “círculo quadrado”. Círculo quadrado só é algo na cabeça do não-cristão, que realmente não consegue justificar um único pressuposto. Assim, Deus não pode criar um círculo quadrado não porque não é onipotente, mas porque círculo quadrado é nada e o nada não pode ser criado.

Adicionalmente aos três pontos anteriores, segue algumas das cosmovisões mais populares do mundo com suas respectivas contradições essenciais:

Empirismo: supõe que todo conhecimento procede das sensações sem antes justificar como estas, sendo materiais, possuem poder de causação real para agir no imaterial (alma);

Naturalismo: afirma a exclusividade do mundo natural, porém pressupõe coisas imateriais na argumentação, como o pensamento e a lógica;

Cientificismo: atribui ao método científico autoridade para descobrir a verdade, mas sempre depende do raciocínio indutivo que, por definição, é formalmente falacioso;

Islamismo: chama Alá de criador de todas as coisas, bondoso, poderoso etc. ao mesmo tempo que o chama de incognoscível, isto é, de não passível de ser conhecido;

Espiritismo: supõe que as coisas melhoram sem antes justificar como um Deus justo pode salvar alguém que não crê em Jesus;

Catolicismo: defende a tradição como superior à Bíblia sem justificar como isso é biblicamente possível; e

Budismo: para a salvação, estende o “não matarás” a qualquer ser vivo quando diariamente todos nós matamos inúmeras bactérias pela simples ingestão de alimentos.

Afinal, é evidente que o material completo que contradiz cada ponto das cosmovisões acima inclui muitos outros argumentos, incluindo tudo o que foi dito nos artigos escritos e publicados neste site (vide também, Teologia Sistemática). Ou seja, na verdade o ônus da prova está com os não-cristãos, que carecem de justificativas abrangentes, válidas e autoritárias para a verdade que alegam possuir. O que eles responderão? Estou aguardando!

No artigo seguinte daremos o tiro de misericórdia em qualquer visão de mundo diferente da cristã. Voltar para continuar...