As questões aqui pontuadas também tratam sobre metafísica, especificamente sobre como possuímos as condições necessárias ao pensamento. Tais condições devem estar presentes em nossa mente antes de qualquer sensação para que a interpretação correta da realidade seja possível (daí a expressão, pré-condições). Algumas devem ser inatas, sendo impossível aprendê-las com o decurso do tempo, como a lógica e as categorias de tempo e espaço. Outras realmente podem ser aprendidas ao longo dos dias, como o conhecimento da situação em particular (porém não pelas próprias sensações, conforme vimos anteriormente no artigo, A Natureza do Pensamento). Assim, precisamos da lógica e de uma certa quantidade de conhecimento prévio (inato ou não), sem as quais tudo seria completa loucura — chegaria um turbilhão de dados em nossa mente a cada instante sem a menor maneira de organizá-los.
Farei uma analogia de um jogo de xadrez para ilustrar o ponto. Na comparação, as regras do xadrez equivalem às pré-condições de inteligibilidade. A diferença é que nem toda pré-condição de inteligibilidade pode ser aprendida com o tempo, devendo algumas ser inatas na mente, como a lógica e o conhecimento prévio nuclear. As regras do xadrez se assemelham mais com as pré-condições de inteligibilidade relativas ao conhecimento da situação em particular, que podem ser aprendidas por instrução verbal durante as sensações (porém, novamente, não pelas próprias sensações). No entanto, o ponto é que, sem algo anterior e à parte da sensação, tudo é ininteligível. Dito isso, imaginemos alguém observando uma partida de xadrez sem conhecer nenhuma de suas regras. A pergunta, é: ele poderia interpretar algo corretamente?
Por exemplo, o que significaria “xeque-mate” para ele? Certamente não necessariamente que temos um vencedor à vista. E se significar empate? Ou que os jogadores estão entediados? O mesmo raciocínio se aplica às funções de cada peça, como o cavalo que se move apenas "em L" ou o bispo que se desloca somente na diagonal. Nenhuma dessas informações pode ser derivada do ato em si de observar, devendo, na verdade, ser impostas à observação — do contrário, seriam infinitas as interpretações possíveis. Portanto, a resposta seria que o observador não conseguiria interpretar nem aprender nada de maneira garantida, a menos que as regras específicas do jogo fossem ensinadas por palavras antes ou durante a partida. (Noções gerais da realidade também são necessárias, como de ganhar e perder e de certo e errado, mas elas devem ser inatas, não podendo ser aprendidas com o tempo.).
Voltando às pré-condições de inteligibilidade, analisemos a lei da não-contradição, que afirma que é impossível que A seja não-A ao mesmo tempo e no mesmo sentido. Por exemplo, um gato não pode ser também um cachorro, e só podemos interpretar o que é um cachorro ou um gato se possuirmos previamente a lei da não-contradição (de forma inata). Assim, essa é a lei que dá significado às coisas, sem a qual não poderíamos interpretar nada da realidade ao nosso redor. Agora, é insuficiente que você concorde com essa lei, devendo ainda justificar o seu uso. Um ladrão não nega o valor dos itens furtados, mas isso não dá a ele o direito de utilizá-los no seu cotidiano — ele continua sendo um ladrão e deve ser punido por isso. E então? Qual a sua justificativa para utilizar a lógica? Se você não responder irrefutavelmente, eu posso validamente chamá-lo de ladrão, pois furtou as leis da lógica do cristianismo!
Semelhantemente, as categorias de causação, tempo e espaço também são pré-condições de inteligibilidade (inatas), e, como tais, necessárias para nós, que vivemos e nos movemos no tempo e no espaço. Como entenderíamos que um carro vai de 0 a 100 km/h em 5 segundos sem as noções de tempo e espaço? A noção de causalidade também é necessária, dado que o próprio movimento do carro é um “efeito” decorrente de um conjunto de “causas” — combustível no tanque, combustão do motor, pé no acelerador etc. Também poderia citar os conceitos de identidade e estabilidade, que nos permite agrupar várias coisas com características iguais ou semelhantes (p.ex., "10 moedas"), garantindo que as coisas não mudam do nada, como um homem se transformando em um leão. Como você justifica esses conceitos? Sua cosmovisão é capaz? De novo, utilizá-los não significa justificá-los.
Em resumo, a minha pergunta é simples: como você passou a possuir as pré-condições de inteligibilidade em sua mente? Conforme vimos anteriormente, você não apenas não pode negá-las, como também não pode responder que aprendeu pelas sensações — algumas devem ser inatas, antes de qualquer sensação ou experiência, e as demais precisam do ocasionalismo para serem aprendidas com o tempo. Sem elas, tudo é completa loucura! Não consegue responder, né? Aliás, como você veio a existir? Você (i.e., sua mente) é resultado da união do espermatozoide do seu pai com o óvulo da sua mãe? Bem, essas coisas são materiais, enquanto sua alma é imaterial. Como pode o material se transformar em imaterial? Lembre-se: misturar essas categorias entre si é uma falácia categórica!
Sob o cristianismo, nada disso representa problemas reais. Isso porque já recebemos as leis da lógica e as categorias de causação, tempo e espaço de fábrica — com nosso próprio espírito, quando fomos criados à imagem e semelhança de Deus! Quero dizer, está em Deus o nosso fundamento para as pré-condições de inteligibilidade, que nos concedeu várias delas de forma inata, ainda no ventre da nossa mãe e antes mesmo de qualquer sensação ou experiência. E o restante, Deus nos fornece com o tempo conforme o ocasionalismo. Essa é a verdade que você insiste em negar, mas que não consegue fugir! Então, não está em nós mesmos a razão para essas pré-condições, como que sendo possível possuí-las sem Deus.
E aí? Ainda insiste que teve sucesso nessas respostas sem o cristianismo? Sim? Tu o dizes! Sigamos, pois. Voltar para continuar...